“Era só um cansaço”. Foi assim que um homem de 52 anos descreveu os primeiros sinais que ignorou durante meses. Professor, ativo e sem histórico conhecido de câncer, ele acreditava que a mudança no funcionamento do intestino fosse consequência do estresse da rotina. Não tinha dor forte, não via sangue evidente nas fezes e continuava trabalhando normalmente.

Durante uma consulta de rotina na Unidade Básica de Saúde, a médica sugeriu um exame simples: o FIT, sigla para Teste Imunológico Fecal. O resultado veio positivo. Depois da colonoscopia, descobriu-se um pólipo avançado no intestino uma lesão que poderia evoluir para câncer nos próximos anos. O problema foi retirado antes que isso acontecesse.

Casos como esse ajudam a explicar por que o FIT vem ganhando espaço nas estratégias de rastreamento do câncer colorretal no SUS e em diversos países.

O que é o FIT?

O FIT (Teste Imunológico Fecal) é um exame que detecta pequenas quantidades de sangue oculto nas fezes, invisíveis a olho nu. Diferente dos exames antigos de sangue oculto, ele utiliza anticorpos específicos para identificar sangue humano proveniente do intestino grosso.

Na prática, o paciente coleta uma pequena amostra de fezes em casa e envia para análise laboratorial.

O objetivo principal é identificar sinais precoces de alterações intestinais antes mesmo do aparecimento dos sintomas.

O FIT detecta apenas câncer?

Não.

Embora seja mais conhecido por ajudar na detecção precoce do câncer colorretal, o exame também pode identificar outras alterações que causam sangramento intestinal, como:

  • pólipos intestinais;

  • adenomas (lesões precursoras de câncer);

  • diverticulose;

  • doença inflamatória intestinal;

  • hemorroidas;

  • fissuras anais;

  • colites.

Por isso, um FIT positivo não significa necessariamente câncer. Ele indica apenas que existe sangramento intestinal que precisa ser investigado.

Qual câncer o exame ajuda a detectar?

O principal foco é o câncer colorretal, que acomete:

  • cólon;

  • reto;

  • parte final do intestino grosso.

Esse é um dos cânceres que mais crescem no Brasil e no mundo.

Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), o Brasil deve registrar cerca de 45.630 novos casos de câncer colorretal por ano no triênio atual, sendo aproximadamente 21.970 casos em homens e 23.660 em mulheres.

O câncer colorretal já está entre os mais frequentes do país, especialmente nas regiões Sul e Sudeste.

Quem deve fazer o FIT?

O exame é mais indicado para pessoas assintomáticas com risco habitual, principalmente a partir dos 45 a 50 anos, dependendo da estratégia de rastreamento adotada pelo serviço de saúde.

Homens e mulheres podem realizar o exame.

De forma geral:

Pessoas sem sintomas e sem fatores de risco

  • rastreamento costuma iniciar entre 45 e 50 anos;

  • o FIT pode ser realizado periodicamente, geralmente anual ou bienal, conforme protocolo adotado.

Pessoas com sintomas

Mesmo abaixo da idade de rastreamento, o exame pode ser solicitado quando há:

  • sangue nas fezes;

  • alteração persistente do hábito intestinal;

  • perda de peso inexplicada;

  • anemia;

  • dor abdominal persistente;

  • sensação de evacuação incompleta;

  • histórico familiar importante.

Nesses casos, muitas vezes a colonoscopia acaba sendo necessária independentemente do resultado do FIT.

O FIT substitui a colonoscopia?

Não completamente.

O FIT é considerado um exame de triagem e rastreamento. Ele ajuda a selecionar pacientes que precisam de investigação mais aprofundada.

Quando o resultado é positivo, normalmente o próximo passo é a colonoscopia.

A principal vantagem do FIT é ser:

  • simples;

  • não invasivo;

  • indolor;

  • mais barato;

  • acessível;

  • fácil de repetir periodicamente.

Já a colonoscopia continua sendo o exame mais completo porque permite visualizar diretamente o intestino e retirar pólipos durante o procedimento.

Quais são os fatores de risco para câncer de intestino?

Os principais fatores associados ao câncer colorretal incluem:

  • idade acima de 50 anos;

  • obesidade;

  • sedentarismo;

  • tabagismo;

  • consumo frequente de álcool;

  • alimentação rica em carnes processadas;

  • baixa ingestão de fibras;

  • histórico familiar;

  • doenças inflamatórias intestinais.

O aumento do sedentarismo, obesidade e alimentação ultraprocessada preocupa especialistas porque vem elevando a incidência desse câncer em adultos mais jovens.

Quais são os sintomas que merecem atenção?

O câncer de intestino pode permanecer silencioso por anos.

Quando surgem sintomas, os mais comuns incluem:

  • sangue nas fezes;

  • diarreia ou prisão de ventre persistente;

  • alteração no formato das fezes;

  • dor abdominal;

  • anemia;

  • perda de peso sem explicação;

  • cansaço frequente;

  • sensação de evacuação incompleta.

O problema é que muitos pacientes só procuram ajuda quando a doença já está em fases mais avançadas.

Por que a detecção precoce é tão importante?

Quando identificado precocemente, o câncer colorretal possui altas chances de cura.

Além disso, muitos casos podem ser evitados antes mesmo do câncer aparecer, através da retirada de pólipos intestinais identificados nos exames.

Especialistas também alertam que o diagnóstico tardio aumenta significativamente os custos do tratamento para o SUS e reduz as chances de sucesso terapêutico.

O SUS oferece o exame?

O acesso pode variar conforme a região, disponibilidade local e programas de rastreamento implantados pelos municípios e estados.

Nos últimos anos, o FIT passou a receber maior atenção justamente por apresentar boa capacidade de rastreamento populacional com custo mais baixo do que estratégias universais de colonoscopia.

A tendência é que o exame seja cada vez mais incorporado às políticas públicas de prevenção do câncer colorretal.

O que fazer para reduzir o risco?

Algumas medidas ajudam na prevenção:

  • manter alimentação rica em fibras;

  • consumir frutas, verduras e legumes;

  • reduzir carnes processadas;

  • praticar atividade física;

  • controlar o peso;

  • evitar cigarro;

  • reduzir álcool;

  • realizar exames preventivos na idade indicada.

Quando procurar um médico?

Qualquer alteração intestinal persistente merece avaliação médica, especialmente após os 45 anos.

Mesmo pessoas sem sintomas podem precisar iniciar rastreamento preventivo dependendo da idade e do histórico familiar.

O diagnóstico precoce ainda é uma das ferramentas mais importantes para reduzir mortes por câncer de intestino.

Este conteúdo possui caráter exclusivamente informativo e não substitui consulta médica, avaliação individualizada ou acompanhamento profissional especializado. Em caso de sintomas ou dúvidas, procure atendimento de saúde.

Dra. Rebeca Soares Andrade CRM-GO 39335