Imagine a seguinte cena: uma brasileira que mora há três anos na Flórida chega a uma consulta visivelmente abatida e constrangida ao descrever o que sente: "Doutora, há dois dias não consigo me afastar de casa, a diarreia vem de repente, muito líquida e forte, quase não dá tempo de chegar ao banheiro. Estou com cólica, enjoo, sem forças para nada. Vi na notícia que tem um surto por aí. Será que é isso?" Não é a primeira vez. Com a quantidade de brasileiros vivendo nos Estados Unidos hoje, é natural que esse tipo de notícia chegue rápido até nós, médicos que atendemos essa comunidade à distância. E, sim, existe um surto real acontecendo por lá agora. Vou explicar tudo o que você precisa entender, sem alarmismo, mas com a atenção que o tema merece.

O que está acontecendo nos Estados Unidos

Desde maio, o CDC (Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA) vem acompanhando um aumento expressivo de casos de ciclosporíase, uma infecção intestinal causada pelo parasita Cyclospora cayetanensis. Já são mais de 300 casos confirmados espalhados por seguidos estados, com pelo menos 20 pessoas hospitalizadas. Nova York concentra o maior número de registros, mas há notificações também em Michigan, Pensilvânia, Nova Jersey, Flórida, Texas, Colorado e outros locais. Michigan, inclusive, chamou atenção das autoridades por registrar, em poucos dias, mais de 170 casos em sete condados, um número muito acima da média histórica do estado.

O ponto importante: a maioria dos pacientes não havia viajado para fora dos Estados Unidos nas semanas anteriores aos sintomas, o que indica que a contaminação está ocorrendo dentro do próprio território americano. A principal suspeita das autoridades é o consumo de vegetais e frutas frescas contaminados, provavelmente por água ou solo com resíduos fecais durante o cultivo, transporte ou manuseio dos alimentos. Até agora, o CDC e a FDA ainda não conseguiram apontar uma fonte única para explicar todos os casos, e a investigação continua.

Por que esse parasita causa uma diarreia "explosiva"

O nome chamou atenção porque é exatamente assim que os próprios órgãos de saúde descrevem o sintoma principal: evacuações aquosas, frequentes e, em muitos casos, muito intensas. Explico o motivo em termos simples: a Cyclospora se instala na parede do intestino delgado e inflama a mucosa responsável por absorver água e nutrientes. Quando essa "esponja" para de funcionar direito, o intestino passa a eliminar muito mais líquido do que deveria, e daí vem a urgência e o volume das evacuações.

Além da diarreia, os sintomas mais comuns são:

  • Cólicas abdominais
  • Náuseas e, em alguns casos, vômitos
  • Perda de apetite e emagrecimento
  • Fadiga intensa
  • Febre baixa e dor de cabeça, em parte dos casos

Um detalhe que costumo reforçar aos pacientes: os sintomas podem ir e voltar em ciclos, sumindo por alguns dias e retornando depois, o que confunde bastante quem está tentando entender se já melhorou ou não.

Existe risco de isso chegar ao Brasil?

Aqui vai a informação que mais importa para quem está lendo do Brasil ou pensando em viajar: a ciclosporíase não é uma doença nova nem exclusiva dos Estados Unidos. Ela já é conhecida e ocorre esporadicamente em diversos países, incluindo o Brasil, geralmente ligada ao consumo de água ou alimentos crus contaminados, sobretudo folhas verdes, ervas frescas e frutas importadas. Ou seja, não estamos falando de um agente totalmente novo que "vai chegar" por avião, mas de um parasita que já circula no nosso ambiente em menor escala.

O que pode acontecer, sim, é o seguinte cenário: um brasileiro que estava nos Estados Unidos, comeu algo contaminado por lá, entra no período de incubação (que pode levar de um a duas semanas) e só desenvolve os sintomas depois de já estar de volta ao Brasil. Isso não caracteriza propagação do surto americano por aqui, mas sim um caso importado isolado. A transmissão de pessoa para pessoa é rara, porque o parasita precisa de um tempo no ambiente para se tornar infectante depois de eliminado nas fezes. Isso reduz bastante o risco de um surto se espalhar como se fosse um vírus respiratório, por exemplo.

Como se prevenir, principalmente se você está nos EUA agora

Para quem está morando ou viajando pelos Estados Unidos neste momento, algumas medidas fazem toda a diferença:

  • Lave bem as mãos antes de comer e depois de usar o banheiro, com água e sabão, esfregando por pelo menos 20 segundos
  • Lave cuidadosamente frutas e vegetais crus, mesmo os que parecem limpos, antes de consumir
  • Prefira alimentos bem cozidos quando estiver em restaurantes ou eventos com grande circulação de pessoas
  • Dê preferência à água filtrada ou de fontes seguras, evitando gelo de origem duvidosa
  • Fique atento a alertas de recall de vegetais folhosos e frutas divulgados pelas autoridades locais de saúde

O que fazer se os sintomas aparecerem

Se você é brasileiro e está nos Estados Unidos e começar com diarreia aquosa persistente, o primeiro cuidado é a hidratação. Beber água, soro de reidratação oral ou líquidos com eletrólitos é essencial, porque o maior risco dessa doença não é o parasita em si, mas a desidratação que ele pode causar. Repouso e uma dieta leve, evitando laticínios, frituras e alimentos muito gordurosos enquanto o intestino está inflamado, também ajudam bastante na recuperação.

Procure atendimento médico ou um hospital quando:

  • A diarreia durar mais de dois ou três dias sem melhora
  • Houver sinais de desidratação, como boca seca, tontura, urina escura ou ausência de urina por várias horas
  • Aparecer sangue nas fezes
  • A febre for alta ou persistente
  • Você fizer parte de um grupo de risco, como gestantes, idosos, crianças pequenas ou pessoas com imunidade baixa

O diagnóstico é feito por exame de fezes, e o tratamento costuma ser feito com antibiótico específico, geralmente eficaz e com boa resposta quando iniciado a tempo. Na maioria dos casos, com hidratação adequada e tratamento correto, a recuperação é completa e sem sequelas.

O que eu, como médica, quero que você leve dessa notícia

Não é motivo para pânico, mas é motivo para atenção. Surtos como esse nos lembram que higiene alimentar e lavagem das mãos continuam sendo, décadas depois, uma das medidas mais poderosas da medicina preventiva. Se você está fora do Brasil, principalmente nos Estados Unidos neste momento, vale redobrar o cuidado com o que come e bebe. E se voltar de viagem com sintomas gastrointestinais que não passam, não empurre com a barriga: procure avaliação médica.


Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e educativo, baseado nos dados mais recentes divulgados pelo CDC (Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos). Ele não substitui uma consulta médica. Se você está com sintomas, procure atendimento médico para uma avaliação individualizada.]

Dra. Rebeca Soares Andrade CRM - GO 39335