Marina, 34 anos, chega para uma consulta com uma dúvida direta: viu em um grupo de WhatsApp a oferta de uma caneta emagrecedora chamada retatrutida, anunciada como "mais forte que as outras" e "sem efeitos colaterais". Ela quer saber se pode confiar.
- "Os dados e o caso clínico citados neste artigo são fictícios e têm fim meramente ilustrativo, servindo para facilitar a compreensão do tema abordado."*
Essa pergunta ficou ainda mais atual porque a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) publicou nesta sexta-feira, 24 de julho, um alerta oficial sobre o tema. Vale entender com calma o que já se sabe cientificamente sobre essa substância, e por que a resposta para Marina precisa ser cuidadosa.
O que é a retatrutida?
A retatrutida é uma molécula ainda em fase de pesquisa clínica, desenvolvida para o tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2. Ela atua sobre três hormônios ligados ao metabolismo (GLP-1, GIP e glucagon), o que a diferencia de medicamentos já aprovados no mercado, que costumam agir sobre um ou dois desses alvos.
Por que ela ainda não está liberada para uso?
Segundo a Anvisa, a farmacêutica responsável pelo desenvolvimento ainda não solicitou registro sanitário no Brasil nem em nenhum outro país. Isso significa que a substância segue em fase avançada de estudos, mas o conjunto completo de pesquisas que comprova seu benefício, sua segurança e sua qualidade ainda não foi concluído. Não existe, até o momento, previsão oficial de quando ela chegará ao mercado.
Mesmo assim, produtos anunciados como retatrutida já circulam no mercado paralelo, muitas vezes com embalagem de aparência profissional, o que não garante nada sobre a origem ou a composição real do conteúdo.
O que os estudos já mostram sobre efeitos colaterais?
Nos ensaios clínicos oficiais e controlados, os efeitos adversos mais comuns são gastrointestinais, como náusea, diarreia, constipação e vômito, seguindo o mesmo padrão observado em outros medicamentos da mesma classe. Nas doses mais altas testadas, esses sintomas aparecem em uma parcela relevante dos participantes, geralmente de intensidade leve a moderada e concentrados no início do tratamento.
Um achado que chamou atenção dos pesquisadores foi a disestesia, uma alteração incomum da sensibilidade da pele, relatada por parte dos participantes que usaram a dose mais alta, algo que não havia sido descrito nos medicamentos semelhantes já aprovados. Também foi observado um discreto aumento temporário da frequência cardíaca em algumas pessoas.
Até agora, nos estudos publicados, a taxa de eventos considerados graves foi semelhante entre quem usou o medicamento e quem usou placebo, e não foram identificados sinais preocupantes relacionados ao coração. Mas é importante entender o que isso realmente significa.
Por que "ainda não sabemos" pesa tanto aqui
Mesmo com resultados promissores, os estudos até aqui envolveram um número de participantes bem menor do que o necessário para detectar efeitos raros e graves, que só aparecem quando milhares de pessoas usam o medicamento por vários anos. Falta também o desfecho mais importante para um tratamento de uso prolongado: o estudo dedicado a avaliar a segurança cardiovascular a longo prazo, que ainda está em andamento.
Ou seja, mesmo na versão estudada, com dose certa, procedência garantida e acompanhamento médico, ainda existem perguntas em aberto sobre o que acontece depois de anos de uso. É exatamente por isso que a aprovação de um medicamento depende de reunir um volume robusto de dados antes de chegar às prateleiras.
E o produto vendido de forma ilegal, é a mesma coisa?
Não. E essa é talvez a informação mais importante deste texto. Quando alguém compra uma versão não registrada, fora do circuito de pesquisa oficial, perde qualquer garantia sobre:
- Se a substância dentro da caneta é realmente retatrutida
- Qual é a concentração real do produto
- Como ele foi armazenado e transportado
- Se a dose aplicada corresponde à informada na embalagem
Isso significa que, ao risco já conhecido dos efeitos adversos estudados nos ensaios clínicos, soma-se um segundo risco, completamente evitável: o de usar uma substância de origem e composição desconhecidas, sem nenhum controle de qualidade por trás.
O que vale levar dessa história
Para pacientes como Marina, a orientação médica não muda com o hype das redes sociais: medicamentos sem registro sanitário não devem ser comprados nem utilizados, sob nenhuma hipótese. Isso não é sobre desconfiar da ciência por trás da retatrutida, que segue seu caminho normal de pesquisa, e sim sobre entender que ainda estamos no meio desse caminho, não no fim dele.
Este conteúdo tem caráter informativo e educativo, não substitui consulta médica individualizada. Cada organismo responde de forma diferente a tratamentos, e decisões sobre uso de medicamentos devem sempre ser tomadas junto a um médico de confiança.
Dra. Rebeca Soares Andrade CRM - GO 39335