Caso ilustrativo: Matias, 27 anos, procura orientação médica depois de ver nas redes sociais que existe uma "injeção contra o HIV". Ele já ouviu falar da PrEP em comprimidos, mas nunca conseguiu manter o uso diário. Quer saber se a novidade é real e se poderá usá-la.
"Os dados e o caso clínico citados neste artigo são fictícios e têm fim meramente ilustrativo, servindo para facilitar a compreensão do tema abordado."
A história de Matias é comum: muita gente sabe que existe prevenção medicamentosa para o HIV, mas tem dificuldade em manter uma rotina diária de comprimidos. É exatamente esse o problema que a nova estratégia anunciada pelo Ministério da Saúde pretende resolver. Durante a 26ª Conferência Internacional sobre Aids, realizada no Rio de Janeiro entre os dias 26 e 31 de julho de 2026, o governo brasileiro apresentou os planos para ampliar as opções de prevenção disponíveis no SUS.
O que é a PrEP e o que muda com a versão injetável
PrEP significa Profilaxia Pré-Exposição: o uso de medicamentos por pessoas sem HIV para reduzir o risco de infecção antes de uma exposição ao vírus. Hoje o SUS já oferece gratuitamente a PrEP oral, que precisa ser tomada todos os dias para funcionar bem. Mais de 350 mil pessoas já utilizam essa forma no Brasil.
A novidade é o cabotegravir injetável, aplicado a cada dois meses em vez de diariamente. O Ministério da Saúde enviará à Conitec (Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS) o pedido formal de incorporação do medicamento, com expectativa de que a análise seja concluída ainda em 2026.
Por que a injeção pode fazer diferença
A principal vantagem discutida pelos especialistas não é a eficácia em si, mas a adesão ao tratamento. Um estudo da Fiocruz com 1,4 mil pessoas em seis cidades brasileiras mostrou que 83% delas preferiram a aplicação injetável aos comprimidos, e 94% compareceram aos serviços de saúde no prazo correto para renovar a proteção. Nenhum participante desse estudo foi infectado pelo vírus no período. Dados de uso real divulgados pelos laboratórios que desenvolvem o medicamento também indicam uma taxa anual de infecção muito baixa entre usuários da injeção.
Isso importa porque, na prática, o comprimido esquecido é um dos maiores motivos de falha da PrEP oral. Reduzir a frequência de doses de 365 para 6 aplicações por ano tende a facilitar a continuidade do cuidado, especialmente para quem tem rotina mais instável ou dificuldade de manter hábitos diários.
Outra tecnologia no radar: o lenacapavir
O Ministério da Saúde também negocia o acesso ao lenacapavir, um preventivo de aplicação semestral aprovado pela Anvisa em janeiro de 2026. Por enquanto, as negociações com o laboratório responsável ainda não chegaram a um valor considerado viável para o sistema público, então essa opção segue em compasso de espera.
Os números que sustentam a estratégia
O investimento em prevenção tem se refletido nos indicadores: 2024 registrou a maior queda histórica na mortalidade por Aids no Brasil, com menos de 10 mil mortes no ano. Nos últimos três anos, a distribuição de medicamentos preventivos pelo SUS cresceu 150%, e a realização de testes rápidos dobrou. Hoje, 22% das pessoas diagnosticadas com HIV já iniciam o tratamento no mesmo dia da confirmação.
E as notícias sobre "cura" do HIV, o que significam?
Na mesma conferência, pesquisadores anunciaram mais dois casos de pessoas que seguem sem carga viral detectável mesmo depois de interromper o uso de antirretrovirais, elevando para 13 o número de casos assim registrados no mundo. Os dois pacientes mais recentes passaram por transplantes de células-tronco para tratar doenças graves do sangue, como leucemia, e receberam medula de doadores com uma mutação genética rara (CCR5-delta32) que dificulta a entrada do vírus nas células de defesa. O transplante não foi feito como tratamento para o HIV, mas como tratamento oncológico, e a remissão do vírus foi um efeito observado depois.
É importante entender os limites dessa notícia. Especialistas preferem o termo "remissão sustentada do HIV sem antirretrovirais" a "cura definitiva", porque ainda não existe um exame capaz de garantir que nenhuma célula infectada permaneça escondida em algum lugar do corpo. O transplante de células-tronco também não é indicado para a maioria das pessoas que vivem com HIV, por ser um procedimento de alto risco reservado a quem já precisa dele por outro motivo médico grave. Ou seja: é um avanço científico relevante para entender o vírus, mas não é uma alternativa disponível ou recomendada fora desse contexto muito específico.
O que isso significa na prática
Essas duas notícias, a possível chegada da PrEP injetável e os novos casos de remissão, caminham em direções diferentes, mas se completam. A remissão mostra até onde a ciência pode chegar em casos excepcionais. A PrEP injetável, se aprovada, é uma ferramenta concreta que pode chegar a milhares de pessoas ainda este ano, facilitando a adesão a um cuidado que já é eficaz hoje. Para quem vive com HIV, a mensagem permanece a mesma: manter o tratamento antirretroviral como orientado, já que a interrupção fora de acompanhamento médico especializado não é segura.
Aviso importante: este conteúdo tem caráter informativo e educacional, não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento com um profissional de saúde. Cada caso deve ser avaliado individualmente. Procure orientação médica para esclarecer dúvidas sobre prevenção, testagem ou tratamento do HIV.
Dra. Rebeca Soares Andrade CRM - GO 39335