Um caso para começar a conversa
Vamos chamar essa paciente de Marisa, 52 anos, professora, casada, dois filhos. Ela chega ao consultório com uma queixa simples: "não consigo mais emagrecer como antes". Na avaliação, o quadro é mais complexo do que ela imaginava:
- IMC de 34 kg/m² (obesidade grau 1)
- Circunferência da cintura de 102 cm - sinal de gordura concentrada na região abdominal
- Pressão arterial levemente elevada (140x90 mmHg)
- Colesterol alterado, com triglicerídeos acima do ideal
- Histórico familiar de infarto (o pai teve um aos 58 anos)
- Cansaço frequente e uma sensação de falta de ar ao subir escadas, que ela sempre atribuiu à "idade" ou ao "sedentarismo"
Marisa é um exemplo muito comum. Ela não tem diabetes diagnosticada, não teve nenhum evento cardíaco até hoje, e por isso muita gente inclusive ela mesma não enxerga a obesidade como um problema "sério". Mas quando colocamos todos esses dados juntos, o quadro muda: Marisa se enquadra no que hoje é chamado de risco cardiovascular moderado, e isso muda completamente a forma como o tratamento da obesidade deveria ser conduzido com ela.
É justamente esse tipo de situação que estão cada vez mais comum nos consultórios, que motivou uma atualização importante na forma como médicos brasileiros estão sendo orientados a tratar a obesidade: não apenas "pelo peso", mas pelo risco que aquele peso representa para o coração.
"Os dados e o caso clínico citados neste artigo são fictícios e têm fim meramente ilustrativo, servindo para facilitar a compreensão do tema abordado."
Obesidade não é só sobre balança
Por muito tempo, o tratamento da obesidade girou em torno de um número: o IMC (Índice de Massa Corporal). Mas os especialistas já entendem que isso é insuficiente. Duas pessoas com o mesmo peso e a mesma altura podem ter riscos de saúde completamente diferentes, dependendo de onde essa gordura está armazenada, se existem outras doenças associadas (como pressão alta, diabetes ou apneia do sono) e do histórico familiar.
Por isso, sociedades médicas brasileiras de obesidade, diabetes, cardiologia, endocrinologia e sono se reuniram e desenvolveram, em 2025, uma diretriz conjunta com uma proposta central: antes de decidir como tratar a obesidade de alguém, é preciso primeiro entender o risco cardiovascular dessa pessoa.
Isso porque a obesidade não prejudica a saúde só pelo peso em si. Ela contribui para o desenvolvimento de problemas cardíacos de duas formas:
- De forma indireta, aumentando a chance de pressão alta, diabetes tipo 2 e colesterol alto que por sua vez lesionam o coração e os vasos sanguíneos ao longo dos anos.
- De forma direta, porque o excesso de gordura, principalmente a abdominal, gera um estado inflamatório crônico no corpo que afeta a estrutura e o funcionamento do coração, mesmo em pessoas que ainda não desenvolveram diabetes ou pressão alta.
Um dado que chama atenção: mesmo pessoas com IMC abaixo de 30 ou seja, tecnicamente com "sobrepeso" e não "obesidade" podem ter risco cardiovascular elevado se a gordura estiver concentrada na região da barriga. É por isso que hoje se dá tanta importância à medida da cintura, e não só à balança.
Como é feita essa avaliação de risco?
Na prática, o médico vai olhar para um conjunto de informações, muito parecido com o caso que demonstrei no inicio:
- Idade
- Pressão arterial
- Colesterol e triglicerídeos
- Se a pessoa já teve diabetes, ou está no caminho para desenvolvê-la
- Se já teve algum evento cardíaco (infarto, AVC) ou problema nas artérias
- Função dos rins
- Presença de apneia do sono
- Histórico familiar de doenças cardíacas precoces
Com base nisso, a pessoa é classificada em três grandes grupos:
- Risco baixo : menos de 5% de chance de ter um evento cardiovascular grave nos próximos 10 anos
- Risco moderado : entre 5% e 20%
- Risco alto : acima de 20%, ou presença de fatores que automaticamente colocam a pessoa nesse grupo (como diabetes de longa data, doença renal avançada, colesterol muito alto ou histórico de infarto/AVC)
Existe ainda uma categoria separada, de alto risco para insuficiência cardíaca, que inclui, por exemplo, pessoas com obesidade grave (IMC acima de 40), obesidade associada a diabetes e pressão alta ao mesmo tempo, apneia do sono grave ou sintomas como cansaço e falta de ar desproporcionais exatamente os sintomas que a paciente fictícias relatou e que ela mesma não valorizava.
Essa classificação não é burocracia médica: ela é o que vai definir, entre outras coisas, qual tratamento tem mais chance de realmente proteger a saúde daquela pessoa e é aqui que entram as chamadas "canetas emagrecedoras".
Por que a meta não é só "perder peso", mas perder o peso certo
Um ponto muito interessante trazido pelos especialistas é que a quantidade de peso perdida importa, e ela muda de acordo com o objetivo:
- Uma perda de 5% do peso corporal já é suficiente para melhorar pressão arterial, colesterol e reduzir bastante o risco de desenvolver diabetes tipo 2.
- Para reduzir de fato o risco de eventos cardiovasculares graves como infarto e AVC, os estudos indicam que o ideal é perder pelo menos 10% do peso máximo já alcançado ao longo da vida.
- Em pessoas com fibrilação atrial (uma arritmia cardíaca) associada à obesidade, perder 10% do peso também reduz significativamente os sintomas e as crises.
Ou seja: não é sobre estética, é sobre uma meta terapêutica mensurável, assim como se mede a dose de um remédio para pressão ou diabetes.
E onde entram as canetas emagrecedoras nisso tudo?
Nos últimos anos, surgiu uma nova geração de medicamentos injetáveis para obesidade popularmente chamados de "canetas emagrecedoras" que representam uma mudança real na forma como a obesidade é tratada. Os mais conhecidos são baseados nas substâncias semaglutida e tirzepatida.
Esses medicamentos imitam hormônios naturais do próprio corpo (chamados GLP-1, e no caso da tirzepatida, também o GIP), que atuam controlando o apetite, a saciedade e o metabolismo do açúcar. O resultado, em estudos clínicos com milhares de pacientes, foi uma perda de peso muito superior à conseguida apenas com dieta e exercício isoladamente em alguns estudos, entre 15% e quase 20% do peso corporal.
Mas o dado mais importante, e que motivou boa parte da atualização das diretrizes médicas, não é só o quanto essas pessoas emagreceram. É o que aconteceu com o coração delas:
- Um grande estudo internacional acompanhou mais de 17 mil pessoas com obesidade e doença cardiovascular já estabelecida. Quem usou semaglutida teve 20% menos eventos cardíacos graves (infarto, AVC ou morte cardiovascular) do que quem usou placebo mesmo com uma perda de peso relativamente modesta, de cerca de 9%.
- Em pessoas com diabetes tipo 2, diferentes medicamentos dessa classe reduziram consistentemente infarto, AVC, hospitalizações por insuficiência cardíaca e até problemas renais.
- Em pacientes com insuficiência cardíaca associada à obesidade, tanto a semaglutida quanto a tirzepatida mostraram melhora real na qualidade de vida, na capacidade de caminhar e nos sintomas, com redução de internações.
- Em pessoas com apneia do sono moderada a grave associada à obesidade, a tirzepatida se tornou o primeiro medicamento aprovado especificamente para essa finalidade, reduzindo significativamente a gravidade da apneia.
É por isso que, hoje, essas medicações não são mais vistas apenas como "remédios para emagrecer". Em pessoas com risco cardiovascular moderado ou alto elas passaram a ser recomendadas como parte do cuidado com o coração, exatamente da mesma forma que um remédio para colesterol ou pressão.
Isso não significa que sejam indicadas para todo mundo que quer perder alguns quilos, nem que substituam mudanças de estilo de vida. Pelo contrário: as diretrizes são claras ao afirmar que alimentação, atividade física e acompanhamento com equipe multidisciplinar continuam sendo a base do tratamento, e que a medicação entra como uma ferramenta a mais especialmente indicada quando existe risco cardiovascular envolvido, e não apenas o desejo estético de emagrecer.
E a cirurgia bariátrica?
Vale destacar que, mesmo com o avanço das canetas emagrecedoras, a cirurgia bariátrica continua tendo um papel importante principalmente em pessoas com obesidade mais grave (IMC igual ou acima de 35) que já têm risco cardiovascular moderado ou alto, e que não conseguiram resultados satisfatórios com o tratamento clínico disponível. Estudos de longo prazo, com mais de 14 anos de acompanhamento, mostram redução significativa de mortalidade cardiovascular nesses pacientes.
Se pudéssemos resumir tudo isso em poucas frases, seria assim:
- Obesidade não deve ser tratada apenas olhando para a balança, mas para o risco real que ela representa para o coração de cada pessoa.
- Esse risco é calculado considerando pressão, colesterol, diabetes, histórico familiar, função renal e outros fatores — e não apenas o IMC.
- A meta de perda de peso muda de acordo com esse risco: 5% já ajuda a controlar fatores como pressão e colesterol; 10% é o que costuma ser necessário para reduzir de fato o risco de infarto e AVC.
- As canetas emagrecedoras (semaglutida, tirzepatida) deixaram de ser vistas apenas como remédios estéticos e passaram a ser recomendadas, com respaldo científico forte, especialmente para quem tem obesidade associada a risco cardiovascular moderado ou alto, diabetes, insuficiência cardíaca ou apneia do sono.
- Nada disso substitui a avaliação individual com um médico. Casos mostram que sintomas "banais" como cansaço, falta de ar, uma cintura maior, podem ser sinais de um risco que vale a pena investigar antes, e não depois de um evento grave.
Se você se identificou ou tem dúvidas sobre o seu próprio risco cardiovascular relacionado ao peso o primeiro passo é sempre conversar com um médico, que poderá avaliar seu caso individualmente e indicar o tratamento mais adequado para você.
Este conteúdo é de caráter informativo e não substitui uma consulta. Para uma melhor avaliação procure um médico.
Dra. Rebeca Soares Andrade CRM - GO 39335