"Doutora, esse cálcio de alga é muito melhor, né?" Eu ouço isso quase toda semana

Semana passada, a Marisa, 58 anos, chegou na consulta com um vidro de suplemento na bolsa antes mesmo de eu perguntar como ela estava.

"Doutora, comprei esse cálcio de alga marinha. A moça da loja disse que é 100% natural, muito mais absorvido que o cálcio normal. Vale o dobro do preço, mas ela garantiu que compensa."

Eu peguei o vidro, li o rótulo e fiz a pergunta que sempre faço nesses momentos:

"Quem te disse isso? Foi um médico ou foi a vendedora?"

Silêncio.

E é exatamente sobre isso que eu quero falar hoje, porque o Lithothamnium calcareum não é golpe, não é veneno, não é milagre, mas também não é o que estão vendendo pra você. E eu, como médica que vê esse tipo de situação praticamente toda semana, sinto que preciso colocar essa conversa nos trilhos certos.

Os dados e o caso clínico citados neste artigo são fictícios e têm fim meramente ilustrativo, servindo para facilitar a compreensão do tema abordado.

O que é essa tal alga, afinal

O Lithothamnium calcareum é uma alga marinha vermelha que vive nas águas geladas do Atlântico Norte. Quando ela morre, sobra um esqueleto cheio de minerais, principalmente cálcio, magnésio e traços de zinco, manganês, selênio, boro e cobre. Esse esqueleto é moído e vira o pozinho, ou a cápsula, que você vê na prateleira da farmácia.

Até aqui, na minha visão, nenhum problema. É uma fonte real de cálcio, de origem natural. O que me incomoda vem depois, na forma como esse produto é vendido pra você.

Lithothamnium calcareum é melhor que o cálcio comum?

Na minha avaliação, honestamente, não.

Sei que essa resposta incomoda quem já gastou dinheiro achando que estava levando pra casa um cálcio premium. Mas, pelo que a ciência mostra até agora, essa superioridade simplesmente não se confirma.

Sim, o Lithothamnium tem uma composição mineral mais variada do que o carbonato ou o citrato de cálcio tradicionais. Mas na prática clínica, quem faz o trabalho pesado continua sendo o próprio cálcio, e não existem estudos robustos mostrando que ele é absorvido melhor ou que traz benefícios superiores em pessoas saudáveis.

Traduzindo de jeito que eu gosto de explicar: o rótulo bonito não muda a fisiologia do seu corpo.

Por que, então, todo mundo fala tão bem dele?

Na minha opinião, isso tem nome: marketing.

"Cálcio orgânico." "100% natural." "Muito mais absorvido." "Muito melhor que o cálcio comum." São frases feitas pra vender, não frases baseadas em evidência. E aqui vai uma máxima que eu repito bastante com meus pacientes: natural não é sinônimo de eficaz. A cicuta também é natural, e nem por isso eu recomendaria a ninguém.

Quem realmente pode se beneficiar

Isso não quer dizer que o suplemento seja inútil, longe disso. Ele pode fazer sentido para quem tem baixa ingestão de cálcio na alimentação, para pessoas com osteopenia ou osteoporose dentro de um tratamento orientado por um médico, e para mulheres na pós-menopausa e idosos, que têm necessidade aumentada de cálcio.

Mas, na minha visão, isso vale pra qualquer suplemento de cálcio bem indicado, não é uma exclusividade da alga.

E quem precisa ter cuidado redobrado

Nem todo corpo reage bem a mais cálcio, e isso é algo que eu sempre reforço. Vale atenção especial se você tem histórico de cálculo renal por cálcio, cálcio já elevado no sangue, doença renal crônica avançada ou alguma condição que mexe no metabolismo do cálcio.

E um detalhe que pouca gente sabe, e que eu considero essencial: o cálcio pode atrapalhar a absorção de remédios como hormônio de tireoide e alguns antibióticos, quando tomados juntos.

"Mas é natural, não tem risco, né?"

Tem, sim, e é isso que eu tento deixar claro sempre que alguém me pergunta.

O excesso de cálcio, de qualquer fonte, alga incluída, pode causar prisão de ventre, desconforto abdominal, aumento do risco de cálculo renal em quem já é predisposto e, em casos mais sérios, hipercalcemia.

Do jeito que eu costumo dizer: mais cálcio não é sinônimo de mais saúde, é sinônimo de mais cálcio, e o corpo não lida bem com excesso de nada.

Então, vale a pena gastar mais caro nessa alga?

Na minha opinião, depende muito mais do seu contexto individual do que do que está escrito no rótulo.

Se a sua alimentação já cobre a necessidade diária de cálcio, você provavelmente não vai sentir diferença nenhuma, só vai sentir o peso no bolso. Agora, se você tem deficiência real ou necessidade aumentada, o Lithothamnium pode sim ser uma opção interessante. Só não é, na minha avaliação, a única opção "de verdade" como o mercado insiste em fazer parecer.

Como eu explicaria para meus pacientes:

Osso forte não se constrói com uma cápsula milagrosa. Se constrói com cálcio adequado, vitamina D em dia, proteína suficiente na dieta, exercício de impacto e musculação, e acompanhamento médico de verdade.

E é isso que eu quero que você leve daqui: nenhum suplemento faz esse trabalho sozinho, nem esse, nem nenhum outro.

O que eu penso, resumidamente

O Lithothamnium calcareum é uma fonte legítima de cálcio marinho e pode, sim, ter seu lugar em situações específicas. Mas até hoje, na minha leitura das evidências disponíveis, não existe nada de qualidade que prove que ele é superior aos suplementos de cálcio tradicionais.

Antes de pagar mais caro por causa de um rótulo bonito, converse com seu médico. Na minha experiência, uma alimentação equilibrada resolve, na maioria das vezes, o que nenhuma cápsula resolve sozinha.

Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento médico individualizado. Procure sempre orientação profissional antes de iniciar qualquer suplementação.

Dra. Rebeca Soares Andrade CRM- GO 39335