O uso excessivo de celular e de inteligência artificial tem sido associado, em estudos recentes, a sintomas como ansiedade, insônia, dificuldade de concentração, irritabilidade e sensação de solidão em adolescentes. A relação ainda é discutida pela ciência, mas médicos recomendam atenção a mudanças de humor, sono e comportamento social ligadas ao uso de telas.
Marina, 16 anos, foi levada à consulta pelos pais porque "não larga o celular nem para dormir". Nas últimas semanas, passou a ter dificuldade para pegar no sono, ficou mais irritada com a família e disse que prefere conversar com um aplicativo de inteligência artificial do que com os amigos, porque "ele nunca julga". Casos como o de Marina, repetidos em consultórios e telas de todo o Brasil têm levado pesquisadores a investigar mais a fundo o que o uso intenso de celular e de IA pode estar fazendo com o cérebro e o humor dos adolescentes.
"Os dados e o caso clínico citados neste artigo são fictícios e têm fim meramente ilustrativo, servindo para facilitar a compreensão do tema abordado."
O que os estudos mostram
O tema ganhou força mundial com o livro Geração Ansiosa, do psicólogo social Jonathan Haidt, que reuniu dados de diversos países mostrando um aumento expressivo de ansiedade, depressão e comportamentos autolesivos entre adolescentes a partir de 2010, período que coincide com a popularização do smartphone. Segundo essa linha de pesquisa, quatro fatores estariam por trás do problema: menos convívio social presencial, menos horas e qualidade de sono, atenção fragmentada por notificações constantes e um padrão de uso que se assemelha ao vício.
Vale dizer que essa teoria não é unânime. Outros pesquisadores, analisando a mesma base de dados em diferentes países, não encontraram queda na satisfação com a vida nem aumento consistente de sintomas psicológicos no mesmo período, e apontam que boa parte da evidência é correlacional, ou seja, mostra que os dois fenômenos aconteceram juntos, mas não prova que um causou o outro. Essa é, hoje, uma discussão ativa e legítima dentro da ciência, e provavelmente vai levar alguns anos até termos uma resposta mais definitiva.
Sintomas mais associados ao uso excessivo de telas
Independentemente do debate sobre causa e efeito, alguns sintomas aparecem com frequência nos estudos e nos relatos clínicos ligados ao uso intenso de celular:
- Dificuldade para iniciar ou manter o sono
- Irritabilidade e oscilações de humor
- Dificuldade de concentração e queda no rendimento escolar
- Ansiedade, principalmente relacionada à comparação social em redes
- Isolamento do convívio presencial
E a inteligência artificial? Um capítulo novo
Se o celular já vinha sendo estudado há mais de uma década, o uso de IA generativa por adolescentes é um fenômeno recente, e a ciência está correndo atrás. Um estudo publicado no fim de 2025 no periódico BMJ identificou que cerca de um terço dos adolescentes já usa ferramentas de IA para interação social, e parte deles relata que essas conversas são até mais satisfatórias do que as conversas com pessoas reais um achado que chamou atenção por seu possível vínculo com o aumento da solidão nessa faixa etária.
Uma pesquisa da RAND Corporation, também de 2025, mostrou que cerca de 1 em cada 8 jovens americanos já usou IA generativa para buscar orientação sobre saúde mental chegando a quase 1 em cada 4 entre os de 18 a 21 anos. Diante disso, a American Psychological Association emitiu um alerta recomendando cautela: os chatbots respondem prevendo palavras de forma probabilística, o que pode simular empatia, mas sem o preparo clínico necessário para lidar com sinais de crise ou dar um diagnóstico seguro.
O que ainda não sabemos
É importante manter os pés no chão: nem todo adolescente que usa muito o celular vai desenvolver um transtorno mental, e tecnologia também tem papel positivo, acesso à informação, suporte a rotinas de estudo, conexão social à distância. O que a ciência hoje aponta com mais segurança não é "celular causa doença mental", mas sim que existe uma associação relevante o suficiente para merecer atenção de pais, educadores e médicos, especialmente quando o uso já está atrapalhando o sono, o humor ou a vida social do adolescente.
Quando buscar ajuda
Vale procurar avaliação médica quando o uso de celular ou de IA vem acompanhado de mudanças persistentes de sono, humor, apetite ou desempenho escolar, ou quando a tecnologia parece estar substituindo e não complementando, as relações reais do adolescente. Uma consulta, presencial ou por telemedicina, ajuda a diferenciar o que é fase, o que é hábito a ajustar e o que já pode ser um sinal de alerta.
Perguntas frequentes
Celular e IA causam doença mental em adolescentes? A ciência ainda não confirma uma relação de causa e efeito direta. O que existe são associações consistentes entre uso excessivo e sintomas como ansiedade, insônia e solidão, que merecem atenção, mas não permitem afirmar que a tecnologia "causa" um transtorno mental sozinha.
Quais os primeiros sinais de alerta? Mudança no padrão de sono, irritabilidade, isolamento social e queda no rendimento escolar associados ao tempo de tela costumam ser os primeiros sinais notados por família e médicos.
Usar IA para desabafar é seguro? Pode oferecer algum acolhimento pontual, mas ferramentas de IA não substituem avaliação profissional, principalmente em casos de sofrimento emocional mais intenso ou risco.
Este conteúdo tem caráter informativo e educativo, não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento médico. Em caso de sintomas persistentes, procure avaliação profissional.
Dra. Rebeca Soares Andrade CRM-GO 39335