Você provavelmente já viu a notícia de que o Brasil passará a produzir o principal medicamento usado no tratamento do HIV pelo SUS. Mas talvez tenha pensado: "E daí? O que isso realmente muda?"
Na verdade, essa é uma notícia muito maior do que parece.
Ela significa que o país ficará menos dependente da importação de um medicamento essencial para milhares de brasileiros. Em outras palavras, o tratamento ganha mais segurança, o risco de faltar remédio diminui e o SUS fortalece sua capacidade de cuidar das pessoas que vivem com HIV.
E isso importa muito.
Hoje, viver com HIV é completamente diferente do que era há 30 ou 40 anos. O diagnóstico, que antes era cercado por medo e poucas opções de tratamento, hoje pode ser acompanhado por uma vida longa, saudável e com qualidade. Grande parte dessa mudança aconteceu graças aos avanços dos medicamentos.
HIV e AIDS: são a mesma coisa?
Muita gente ainda usa os dois termos como se fossem sinônimos, mas eles significam coisas diferentes.
- O HIV é o vírus
- A AIDS é a doença que pode surgir quando esse vírus enfraquece muito o sistema de defesa do organismo
Ter HIV não significa ter AIDS. Hoje, uma pessoa que descobre o HIV cedo e faz o tratamento corretamente pode nunca desenvolver a AIDS.
Por que esse remédio é tão importante?
O medicamento que o Brasil passará a produzir chama-se dolutegravir.
Ele faz parte do tratamento mais utilizado atualmente pelo SUS porque consegue impedir que o vírus continue se multiplicando dentro do organismo.
Com isso, a quantidade de vírus no sangue vai diminuindo até ficar tão baixa que os exames deixam de detectá-la. É o que chamamos de carga viral indetectável.
Indetectável = Intransmissível (I = I)
Quando uma pessoa toma os medicamentos corretamente, mantém acompanhamento médico e permanece com carga viral indetectável por pelo menos seis meses, ela não transmite o HIV por via sexual.
Esse conceito ficou conhecido mundialmente como Indetectável = Intransmissível (I = I) — e mudou completamente a forma como enxergamos o HIV.
Como funciona o tratamento no Brasil?
No Brasil, o tratamento é totalmente gratuito.
Após um teste positivo, a pessoa é encaminhada para um serviço especializado do SUS, realiza exames, inicia os medicamentos e passa a ser acompanhada regularmente.
Além dos remédios, o SUS também oferece:
- consultas;
- exames para acompanhar a carga viral;
- orientação de uma equipe multiprofissional.
Tudo isso sem custo para o paciente.
Por que fabricar esse medicamento no Brasil faz diferença?
Imagine depender de outro país para receber um medicamento que precisa ser tomado todos os dias.
Se houver problemas na produção mundial, atrasos na importação ou crises internacionais, existe risco de desabastecimento.
Ao produzir o dolutegravir no próprio país, o Brasil ganha mais autonomia. Isso ajuda a:
- garantir que o medicamento continue chegando aos pacientes de forma regular;
- fortalecer um dos maiores programas públicos de tratamento do HIV do mundo.
O tratamento ainda é difícil?
Felizmente, não como antigamente.
No início da epidemia, era comum que as pessoas precisassem tomar diversos comprimidos ao longo do dia, com muitos efeitos colaterais.
Hoje, para grande parte dos pacientes, o tratamento é muito mais simples. Em muitos casos, basta um comprimido por dia para controlar completamente o vírus.
Quando o tratamento é seguido corretamente, a expectativa de vida pode ser muito próxima à de uma pessoa que não vive com HIV.
Como acontece a transmissão?
O HIV pode ser transmitido principalmente por:
- relações sexuais sem preservativo;
- compartilhamento de seringas e agulhas;
- transmissão da mãe para o bebê durante a gestação, parto ou amamentação, quando não há tratamento;
- contato com sangue contaminado.
O HIV NÃO é transmitido por:
- abraço;
- beijo social;
- aperto de mão;
- compartilhar copos, pratos, talheres;
- piscinas;
- banheiros;
- picadas de mosquito.
Esses mitos ainda existem e acabam alimentando o preconceito.
É possível prevenir?
Sim. Hoje existem várias formas de prevenção.
O preservativo continua sendo um grande aliado.
A PrEP é um medicamento usado antes da exposição ao vírus por pessoas com maior risco de infecção.
A PEP é indicada após uma situação de risco. Ela deve ser iniciada em até 72 horas e pode evitar que a infecção aconteça.
O teste é outra estratégia muito importante. Fazer o teste quando houver exposição ou dúvidas permite que, quanto mais cedo o diagnóstico é feito, mais cedo o tratamento pode começar.
O que essa notícia representa?
Produzir o dolutegravir no Brasil vai muito além da fabricação de um medicamento.
É investir na saúde pública, reduzir a dependência de importações e garantir que milhares de pessoas continuem tendo acesso a um tratamento seguro e eficaz.
Mas talvez a mensagem mais importante seja outra.
Hoje, o HIV deixou de ser uma sentença de morte.
Com diagnóstico precoce, tratamento adequado e acompanhamento regular, é possível trabalhar, estudar, formar uma família, ter filhos e viver muitos anos com qualidade de vida.
Informação correta, acesso ao tratamento e combate ao preconceito continuam sendo as ferramentas mais importantes nessa história.
Esse conteúdo é de caráter informático e não substitui uma consulta. Para uma melhor avaliação procure um médico.
Dra. Rebeca Soares Andrade CRM - GO 39335