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Lucas tinha 26 anos quando finalmente conseguiu nomear o que sentia desde criança. Engenheiro de software brilhante, nunca entendia por que as confraternizações de trabalho o esgotavam tanto. Por que ele precisava decorar roteiros mentais antes de qualquer reunião. Por que mudanças de última hora no projeto desencadeavam uma angústia que seus colegas simplesmente não compartilhavam. Durante anos, ele se chamou de ansioso, antissocial, difícil. O diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista chegou aos 26 anos e, segundo ele mesmo, “foi como receber um manual de instrução para a própria vida”.

A história de Lucas não é um caso isolado. É o retrato de milhões de brasileiros que convivem com o Transtorno do Espectro Autista (TEA) sem nunca terem recebido um diagnóstico formal, ou que o receberam tarde demais para evitar anos de autoculpa desnecessária. E é justamente por esse motivo que uma lei aprovada neste ano merece mais do que uma data no calendário: ela merece uma conversa honesta sobre o que o autismo realmente é, como se manifesta e como a medicina precisa tratá-lo.


A lei que estreia hoje: o que mudou?

Em 31 de março de 2026, o presidente sancionou a Lei 15.365, que instituiu oficialmente o Dia Nacional do Orgulho Autista, a ser celebrado todo dia 18 de junho. Hoje é, portanto, a primeira vez que essa data é comemorada no Brasil.

O projeto teve origem no PL 3.391/2020, proposto pelo ex-senador Romário, e foi aprovado no Senado com relatoria da senadora Mara Gabrilli (PSD-SP). A norma não substituiu o Dia Nacional de Conscientização sobre o Autismo, celebrado em 2 de abril e já previsto pela Lei 13.652/2018. As duas datas agora coexistem com propósitos distintos: abril para conscientização, junho para orgulho.

Mas o que exatamente significa “orgulho autista”? E por que isso tem relevância clínica? Essa resposta começa entendendo o que o diagnóstico de TEA realmente representa.


Autismo não é uma doença a ser curada. É uma forma diferente de existir.

Antes de falar em orgulho, é preciso desfazer um equívoco que ainda persiste em consultórios, escolas e até em conversas de família: autismo não é uma doença no sentido tradicional do termo. Não existe uma infecção, um tumor, nem uma lesão que o cause. O Transtorno do Espectro Autista é uma condição do neurodesenvolvimento, ou seja, uma forma diferente pela qual o cérebro se organiza e processa o mundo desde o nascimento.

O DSM-5-TR (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, 5ª edição revisada), principal referência diagnóstica utilizada no Brasil, define o TEA como um padrão de características que envolve dois eixos principais:

1. Déficits persistentes na comunicação e na interação social. Isso inclui dificuldades em iniciar ou manter conversas, em compreender linguagem não verbal (expressões faciais, tom de voz, gestos), em construir e manter relacionamentos adequados à fase de desenvolvimento, e em adaptar o comportamento a diferentes contextos sociais.

2. Padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividades. Isso abrange movimentos motores repetitivos (como balançar o corpo ou as mãos, girar objetos), insistência em rotinas e grande resistência a mudanças, interesses altamente focados e intensos em temas específicos, e reatividade incomum a estímulos sensoriais (hipersensibilidade a sons, texturas, luz ou temperatura, ou, ao contrário, busca intensa por estimulação sensorial).

Para o diagnóstico ser confirmado, esses sintomas precisam estar presentes desde as fases iniciais do desenvolvimento, causar prejuízo clinicamente significativo no funcionamento social, profissional ou em outras áreas importantes da vida, e não serem melhor explicados por deficiência intelectual isolada ou atraso global do desenvolvimento.


Por que “espectro”? Porque o autismo tem mil rostos.

A palavra “espectro” existe por um motivo preciso: o autismo não tem um único formato. Duas pessoas com o mesmo diagnóstico podem ter experiências de vida radicalmente diferentes. Uma pode falar com fluência, trabalhar de forma independente e ser diagnosticada apenas na vida adulta. A outra pode ter comunicação verbal muito limitada, necessitar de apoio intenso para atividades básicas e ser diagnosticada ainda nos primeiros anos de vida.

Para organizar essa diversidade dentro da prática clínica, o DSM-5 introduziu o conceito de níveis de suporte, que substituiu as antigas subcategorias (Síndrome de Asperger, Autismo de Alto Funcionamento, etc.). São três níveis, que descrevem a intensidade do apoio que a pessoa necessita, e não o grau de gravidade como uma condenação.

Essa distinção importa muito: nível de suporte não é uma hierarquia de valor humano. É uma ferramenta clínica para nortear intervenções.


Nível 1: Requer suporte

O que significa

No Nível 1, a pessoa consegue funcionar de forma relativamente independente na maioria dos contextos cotidianos. Sem apoio especializado disponível, os déficits de comunicação social causam prejuízos perceptíveis, mas não impedem a vida funcional. A inflexibilidade de comportamento, porém, interfere de forma significativa em pelo menos um contexto, comprometendo a independência.

Características frequentes:

  • Dificuldade em iniciar interações sociais espontâneas
  • Resposta inadequada ou desconcertante em situações sociais informais
  • Aparente pouco interesse em relações sociais (que muitas vezes esconde, na verdade, intensa vontade de se conectar, mas dificuldade em saber como)
  • Inflexibilidade que gera sofrimento real em mudanças de rotina
  • Dificuldade de organização e planejamento que prejudica a autonomia em tarefas complexas
  • Comunicação verbal preservada, mas com dificuldades na linguagem social implícita (ironias, subentendidos, insinuações)

Esse é o nível frequentemente associado ao diagnóstico tardio, especialmente em mulheres, que aprendem desde cedo a “mascarar” as diferenças para se encaixar socialmente.


Caso clínico: Lucas, 26 anos

Lucas procurou atendimento médico queixando-se de “ansiedade social severa” e insônia. Era engenheiro de software em uma empresa de tecnologia. Descrevia-se como alguém que “não sabia conversar com pessoas” e que precisava, literalmente, preparar mentalmente o que ia dizer antes de qualquer interação social não estruturada.

No consultório, falava com vocabulário preciso, mantinha contato visual adequado quando o assunto era técnico, mas demonstrava rigidez perceptível ao ser interrompido no raciocínio. Contou que dependia de rotinas fixas para se organizar, que qualquer alteração de agenda o deixava profundamente desconfortável, e que tinha um interesse intenso por história medieval, tema sobre o qual falava com profundidade e entusiasmo raramente visto em outros assuntos.

Referenciado para avaliação neuropsicológica, recebeu o diagnóstico de TEA Nível 1. Ao saber do diagnóstico, a primeira reação foi de alívio: “Não sou preguiçoso nem arrogante. Meu cérebro funciona diferente.”

A conduta incluiu psicoeducação sobre o TEA, terapia cognitivo-comportamental adaptada para autismo, orientação sobre estratégias de manejo sensorial no ambiente de trabalho e, de forma fundamental, comunicação com o RH da empresa para adaptações razoáveis no espaço de trabalho. Não havia indicação de medicação específica para o TEA, mas foi feito acompanhamento do quadro de ansiedade associado.


Nível 2: Requer suporte substancial

O que significa

No Nível 2, os déficits de comunicação social são marcados, visíveis mesmo para observadores não treinados, e persistem mesmo quando a pessoa recebe algum apoio. As interações sociais são limitadas, as respostas a aberturas de outros são reduzidas ou atípicas, e os comportamentos restritos e repetitivos aparecem com frequência suficiente para serem evidentes no dia a dia.

Características frequentes:

  • Linguagem verbal presente, mas com limitações funcionais significativas (frases simples, vocabulário restrito a temas de interesse, dificuldade em manter diálogos recíprocos)
  • Dificuldade marcada em se adaptar a rotinas novas ou inesperadas
  • Comportamentos repetitivos visíveis (estereotipias motoras, rituais rígidos antes de atividades)
  • Interesse social presente, mas com grande dificuldade em saber como estabelecê-lo
  • Hipersensibilidade ou hipossensibilidade sensorial que interfere no cotidiano
  • Necessidade de suporte para tarefas escolares, sociais e de autocuidado

Crianças nesse nível costumam frequentar a escola regular com suporte de acompanhante terapêutico e precisam de intervenções multidisciplinares contínuas.


Caso clínico: Marina, 9 anos

A mãe de Marina a trouxe ao consultório preocupada com as dificuldades da filha na escola. Marina tinha linguagem funcional, mas respondia principalmente quando perguntada diretamente. Raramente iniciava conversas com colegas. Quando tentava se aproximar de outras crianças, fazia isso de forma que os outros consideravam “estranha”: ficava ao lado do grupo sem se integrar, repetia frases de desenhos animados fora de contexto.

Em casa, qualquer mudança na rotina desencadeava crises intensas. A troca do caminho para a escola por conta de uma obra chegou a gerar uma semana de grande sofrimento. Marina alinhava objetos antes de dormir todos os dias, na mesma ordem, e qualquer alteração nesse ritual impedia o sono.

No exame, demonstrava ecolalia (repetição de frases ouvidas em outros contextos), estereotipia de balançar o corpo quando ansiosa, e hipersensibilidade clara a barulhos (cobria os ouvidos em qualquer ambiente com mais de três pessoas falando ao mesmo tempo).

O diagnóstico foi TEA Nível 2. A conduta envolveu equipe multidisciplinar: fonoaudióloga com foco em comunicação funcional e habilidades sociais, terapeuta ocupacional para manejo sensorial, psicóloga especializada em TEA, e acompanhante terapêutico na escola. A família recebeu orientação sobre a Lei Berenice Piana (Lei 12.764/2012), que garante o direito ao acompanhante especializado em escolas públicas e privadas.


Nível 3: Requer suporte muito substancial

O que significa

O Nível 3 representa o maior grau de comprometimento funcional dentro do espectro. Os déficits de comunicação social verbal e não verbal são severos, causando prejuízos graves no funcionamento em praticamente todos os domínios da vida. A iniciação de interações sociais é muito limitada, e as respostas a tentativas de interação de outros são mínimas.

Características frequentes:

  • Comunicação verbal muito limitada ou ausente (uso funcional de poucas palavras ou comunicação principalmente não verbal e por imagens)
  • Necessidade de comunicação aumentativa e alternativa (pranchas de comunicação, aplicativos de CAA, PECS)
  • Comportamentos repetitivos que interferem marcadamente em todas as áreas do funcionamento
  • Extrema dificuldade em lidar com qualquer mudança, mesmo pequena
  • Necessidade de supervisão constante para segurança e autocuidado
  • Frequente presença de comorbidades como epilepsia, deficiência intelectual e transtornos do sono
  • Comportamentos autolesivos em alguns casos, associados a sofrimento sensorial ou comunicação de necessidades não atendidas

É o nível que exige a rede de suporte mais ampla: família, escola especializada, equipe multidisciplinar completa e, muitas vezes, suporte para toda a vida.


Caso clínico: Pedro, 5 anos

Pedro foi trazido pela família ao neuropediatra com encaminhamento da UBS após a professora da educação infantil relatar que ele “não respondia ao próprio nome” e “não brincava com as outras crianças”. A mãe contava que sabia que algo era diferente desde os 18 meses, quando Pedro parou de dizer as poucas palavras que havia aprendido.

Na avaliação, Pedro não fazia contato visual consistente. Sua comunicação verbal estava limitada a quatro palavras funcionais (“água”, “não”, “mãe” e o nome do desenho favorito). Comunicava suas necessidades principalmente puxando a mão da mãe e levando-a até o objeto desejado. Apresentava estereotipias motoras frequentes (girar objetos, agitar as mãos), forte resistência a qualquer mudança de ambiente, e episódios de angústia intensa com sons inesperados, como a buzina de carros ou o secador de cabelo.

A família relatava que Pedro mordia as próprias mãos em momentos de sobrecarga sensorial e que o sono era fragmentado, com despertares noturnos frequentes.

O diagnóstico foi TEA Nível 3. A investigação complementar incluiu EEG (descartando epilepsia comórbida nesse caso) e avaliação genética (cariótipo com microarranjo), que não identificou alteração genética associada. A conduta foi estruturada com escola de educação especial com profissionais treinados, introdução de sistema de comunicação aumentativa (PECS e aplicativo de CAA no tablet), terapia ocupacional com foco sensorial, fonoaudiologia intensiva, e orientação familiar detalhada sobre manejo de crises. A equipe também discutiu com a família as expectativas reais de desenvolvimento, sem subestimar o potencial de Pedro, mas sem criar expectativas irrealistas que gerassem sofrimento adicional.


O que o Dia do Orgulho Autista muda na prática médica?

O orgulho autista não é uma negação dos desafios. É o reconhecimento de que pessoas autistas têm valor, identidade e direitos, independentemente do nível de suporte que necessitam. E isso tem impacto direto na forma como médicos devem abordar o diagnóstico e o tratamento.

1. O diagnóstico não é uma sentença. Receber o diagnóstico de TEA não define o que uma pessoa pode ou não conquistar. Define o tipo de suporte que ela precisa para conquistar o que deseja. A comunicação do diagnóstico deve ser feita com cuidado, clareza e esperança realista.

2. O tratamento não é sinônimo de “cura”. Não existe medicamento para tratar o autismo em si. O que existem são intervenções para condições associadas (ansiedade, TDAH comórbido, distúrbios do sono, epilepsia) e terapias que ampliam habilidades funcionais e qualidade de vida. A meta não é fazer a pessoa autista parecer neurotípica. É apoiá-la a viver bem sendo quem é.

3. A conduta muda conforme o nível de suporte. Um paciente em Nível 1 pode precisar principalmente de psicoeducação, adaptações ambientais e terapia cognitivo-comportamental. Um paciente em Nível 3 precisa de uma rede de suporte muito mais robusta, que inclui família, escola especializada, CAA e acompanhamento médico para comorbidades. Tratar todos com a mesma abordagem é tratar o diagnóstico, não a pessoa.

4. Mascaramento é sofrimento, não adaptação. Especialmente em mulheres e meninas autistas, o fenômeno do “mascaramento” (camuflar características autistas para se encaixar socialmente) é frequente e intensamente desgastante. Reconhecer isso clinicamente significa não interpretar ausência de sintomas visíveis como ausência de sofrimento.

5. Família também precisa de cuidado. Mães, pais e cuidadores de pessoas autistas, especialmente em níveis de suporte mais altos, apresentam taxas elevadas de burnout, ansiedade e depressão. Incluir a família no plano terapêutico não é opcional: é parte da conduta.


Desinformação mata oportunidades. Informação muda vidas.

O Brasil tem mais de 2 milhões de pessoas diagnosticadas com autismo, segundo o IBGE. A prevalência real, considerando subdiagnósticos, é provavelmente muito maior. Ainda assim, o acesso a diagnóstico precoce e a intervenções adequadas continua sendo desigual: crianças de famílias com mais recursos chegam mais cedo ao especialista, e crianças pobres costumam chegar tarde, ou nunca chegam.

O Dia do Orgulho Autista não resolve essa desigualdade por si só. Mas datas como esta ampliam o debate público, aumentam o reconhecimento do diagnóstico pela própria comunidade, e reduzem o estigma que ainda faz muitas famílias esconderem o diagnóstico com vergonha ao invés de buscarem ajuda.

Quando um médico entende o espectro em toda a sua diversidade, quando uma escola sabe a diferença entre um estudante “difícil” e um estudante que precisa de suporte diferente, e quando uma família recebe o diagnóstico como um começo ao invés de um fim, mais pessoas vivem com dignidade.

Isso é o que o orgulho autista tem a ver com medicina.


Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e educativo. Não substitui a avaliação clínica individualizada por profissional de saúde habilitado. Os casos clínicos descritos são ficcionais, criados para fins didáticos, e não correspondem a pacientes reais. Se você ou alguém de sua família apresenta características descritas neste texto, procure orientação médica especializada.

Dra. Rebeca Soares Andrade CRM-GO 39335